Tradutês ou tradutorês: que língua é essa?

De TradWiki 2.0
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Diversos textos traduzidos trazem consigo uma marca inconfundível: a falta de fluidez e de naturalidade, apesar de tecnicamente estarem escritos na língua-alvo. Entenda-se “texto”, aqui, como todo material escrito como resultado de uma tradução, seja ele um livro, um panfleto informativo ou uma legenda.

Toury (1995) afirma que a tradução não é propriamente um texto nem em língua-fonte e nem em língua-alvo, é uma espécie de terceiro código. Esse terceiro código pode se apresentar distorcido devido a uma influência exagerada da língua-fonte. Tal distorção pode ser notada de forma leve, produzindo um incômodo ou perturbação na leitura ou, ainda, ser de tal forma pesada e expressiva a ponto de provocar a interrupção ou abandono da leitura. “Ao lermos uma tradução, é comum termos a clara noção de que estamos perante um texto traduzido, ao contrário do que acontece quando lemos um texto original, produzido sem as limitações impostas por um texto-fonte escrito num idioma diferente”, afirma Ana Frankenberg-Garcia.

O tradutês ou tradutorês pode ocorrer tanto em textos traduzidos quanto em versões. De fato, Diana Margarida sustenta que “ao traduzir um texto para outra língua, devemos cuidar para que não haja interferência de nossa língua materna, para que o resultado pareça natural e o leitor não sinta aquele gostinho estranho de ‘tradutorês’. Uma boa tradução deve dar ao leitor a sensação de o texto ter sido escrito na própria língua. ” Diana Santos elaborou uma das definições mais amplas do que significa esse fenômeno: “a minha definição de tal fenómeno consiste na retenção, por parte da tradução, de características formais próprias da língua de origem que não são totalmente adequadas na língua de destino” e que tal resultado “vai de quase inaceitável até passível de uma reformulação mais usada”. E conclui: “tradutês, ou seja, que a influência da forma da língua de origem se reflicta num português de alguma forma desviante”.

Tais desvios ou características do tradutês podem ser identificadas por leitores e/ou tradutores experientes, enquanto em outros podem provocar apenas incômodo e leve estranheza, sem que se possam identificar os itens ou características que tornam o texto pouco natural. O tradutês parece ser um fenômeno de elaboração textual não consciente por parte do tradutor. Isto significa que o tradutor pode não perceber de imediato que o léxico e as estruturas que está usando no momento da tradução fogem de algum modo da língua-alvo. Frequentemente é apenas na revisão do texto, efetivada pelo próprio tradutor ou por outros leitores, que o tradutês costuma ser percebido e corrigido. Muitos estudos sobre o tradutês se referem ao léxico, mais especificamente à presença ou ausência de unidades lexicais e à quantidade de ocorrências de vocábulos presentes no texto traduzido e nos textos originais em um determinado idioma. De fato, se um texto traduzido apresenta mais ocorrências de uma determinada palavra do que os textos em língua-fonte, esse é um dado que induz à suposição de que o texto contém “tradutês”.

No entanto, algumas marcas sintáticas, hipercorreções e até mesmo a pontuação podem revelar o tradutês, esse idioma intermediário, a meio passo entre a língua-fonte e a língua-alvo.

A falta de fluidez e de naturalidade podem ser relacionadas a:

♦ Falsos cognatos: quando a tradução inclui termos e expressões que se assemelham a outras já existentes na língua-alvo, mas que apresentam significados diferentes e que não se adequam ao contexto na tradução. Como exemplo, o verbo em inglês “to attend” que não significa “atender”, mas estar presente, frequentar, assistir, comparecer. Em italiano, a palavra “burro” que não significa um animal, mas “manteiga” e em espanhol a palavra “vaso” que não é o objeto onde se colocam flores, mas o copo para beber. Existem inúmeros exemplos de falsos cognatos  em diversas  línguas . Essa característica do tradutês é a mais fácil de ser detectada, pois geralmente não apresenta nenhuma integração no contexto.
♦ A ordem convencional dentro de expressões e as expressões idiomáticas em si: qualquer mudança na ordem das expressões pode produzir uma sensação de artificialidade no leitor de uma tradução. Se, por exemplo, usamos “banho, cama e mesa” em vez de “cama, mesa e banho” ou “brigando como gato e cão” em vez de “brigar como cão e gato” a ordem natural em português estará rompida e o efeito será de perturbação na leitura. Se algum elemento dentro da expressão sofrer alteração, como uma preposição, por exemplo, também haverá incômodo na leitura: “batismo com fogo*/batismo de fogo”, “depois da limpeza a sala deve estar cintilando*/brilhando. Do mesmo modo, as expressões em si devem ser adaptadas de acordo com a língua-alvo. A expressão “while there is life, there is hope” pode ser entendida se for traduzida por “enquanto há vida, há esperança”, mas o texto pode se beneficiar e se tornar menos artificial se usarmos a expressão correspondente  em português, “a esperança é a última que morre”. Expressões comuns do inglês  como “bread and breakfast” e “let’s do it” têm suas próprias versões na língua portuguesa: “pousada” e “vamos lá”, e não “cama e café da manhã” e “vamos fazer isso”. Em espanhol , temos como exemplos “meter la pata” e “no entiendo ni jota”, respectivamente “pisar na bola/dar um fora” e “não entender bulhufas”. 

Algumas expressões do tradutês vão se incorporando à língua-alvo, como resultado da apropriação e uso cada vez mais frequente por seus falantes. Alguns exemplos que se percebem atualmente em português, mais frequentemente oriundos da língua inglesa, são:

• worst case scenario – o pior cenário* (a pior das hipóteses)

• massive – massivo* (maciço)

• let me know – deixe-me saber* (avise-me)

• to realize – realizar* (perceber, entender, dar-se conta)

• to test positive - testar positivo* (resultado positivo de/para o teste)

Se as expressões desviantes acabam sendo utilizadas pelos falantes da língua-alvo e incorporadas ao uso, deve-se mesmo combater o tradutês? A resposta, como quase sempre em tradução é “depende”!

De modo geral, as construções que ainda não estão realmente incorporadas ao idioma, que não constam em dicionários, gramáticas e/ou manuais de redação, devem ser evitadas em traduções nas quais o registro é formal. Em outros casos, caberá ao tradutor decidir se vale a pena fazer escolhas mais extremas em termos de uso e consolidação de novos vocábulos e estruturas linguísticas.

Para auxiliar o trabalho do tradutor, segue abaixo uma lista de exemplos coletados em textos e legendas para os quais são sugeridas alternativas de tradução:

♦ estou aqui pra você -► estou à disposição, às ordens, você tem o meu apoio, estamos juntos, estou aqui com você ou simplesmente estou aqui

♦ não tive a chance de (me despedir, p. ex) –► não pude, não consegui, não deu

♦ apenas seja você –► seja você mesmo

♦ cérebro esquerdo/direito –► hemisfério cerebral esquerdo/direito, lado esquerdo/direito do cérebro

♦ pense de novo –► pense bem, pense duas vezes

♦ don’t shit where you eat –► não cuspa no prato onde come

♦ aqui é onde eu pertenço –► aqui é o meu lugar ; nós pertencemos um ao outro –► nós somos um do outro; mulheres pertencem a todos os lugares –► o lugar das mulheres é em todos os lugares

♦ sentir-se confortável (em uma situação) –► sentir-se à vontade

♦ prometo que todos são legais –► juro/garanto que todos são legais

♦ atrair os olhos de alguém –► atrair o olhar/a atenção de alguém

♦ “fulano” está aqui –► “Fulano” chegou.

♦ você fez meu dia –► ganhei o dia/ganhei meu dia

♦ vão tentar quebrá-lo –► vão tentar subjugá-lo, dominá-lo, sujeitá-lo, destruí-lo

♦ o que não está dizendo? –► o que está escondendo, o que não está contando

♦ eu sou a sua melhor chance –► eu sou a sua melhor opção

♦ tenho um discurso para dar –► tenho que fazer um discurso, tenho que discursar

♦ o quão inteligente você é? –► o quanto você é inteligente, qual é a medida/o grau da sua inteligência, meça sua inteligência

♦ seja honesto comigo, me responda honestamente –► seja sincero/franco/transparente comigo, me responda com sinceridade

♦ submeter um documento/artigo –► apresentar, entregar, enviar um documento/artigo

♦ aplicar para uma vaga de emprego, processo de aplicação para um curso –► candidatar-se a uma vaga, processo de seleção